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B012 – Capítulo 8 – Intervenção Superior, Segunda Parte (Estudo 12 de 20)

       

Centro Virtual de Divulgação e Estudo do Espiritismo – CVDEE
Sala de Estudos Manoel Philomeno
Livro em estudo: Grilhões Partidos – Editora LEAL - 1974
Autor: Espírito Manoel Philomeno de Miranda, psicografia de Divaldo Pereira Franco
B012 – Capítulo 8 – Intervenção Superior, Segunda Parte

Capítulo 8
Intervenção Superior

A vivenda suntuosa demorava-se cercada de árvores, recuada da rua. Em dois pisos, era agradável na arquitetura e na decoração.
Recebidos com carinho, foram introduzidos, incontinente, na sala ampla e confortável.
— Desejo ter o prazer de apresentar-lhe o amigo Joel — disse o anfitrião.
— Ë também militar, estando no posto de Tenente Coronel. Você o conhece...
— Sim, — concordou o apresentado, — tive a honra de servir com o Coronel, na Itália...
— Lembro-me de alguma forma — assentiu.
Não pôde, porém, ocultar o enfado que o surpreendeu, face ao imprevisto constrangimento que aquela comparência colocaria na conversação que esperava manter.
— Convidei-o especialmente para esta noite. — Aduziu o colega.
— Somos amigos e, como eu aguardasse você com acendrado interesse, pensei no bem que a presença do nosso Tenente-Coronel poderia dispensarmos a todos.
— Sim, sem dúvida. — Quase resmungou.
O semblante fez-se-lhe sombrio, ante o receio de que o tema sobre a filha e sua enfermidade passasse à participação de estranhos. Esforçou-se para manter-se delicado e a palestra se generalizou, sem maior importância.
A refeição simples e saborosa transcorreu agradável, O Tenente-Coronel era viúvo há poucos meses, embora mantivesse o semblante jovial, desanuviado. Jovem de 40 anos, era de compleição bem proporcionada, destacando-se nele as marcas do atleta, possuidor de olhos brilhantes que fulguravam na face dando-lhe máscula beleza. Tran qüilo, sua voz agradava, sem afetação e pelo comedimento de que se fazia possuidor.
Concluído o jantar, a senhora Mercedes convidou os visitantes à varanda confortável onde seria servido o café.
Descontraídos, a conversa girou por assuntos de somenos importância.
Soprava uma aragem fresca, levemente perfumada provinda do jardim, adentrando-se em ondas contínuas, suaves.
— Alguma nova sobre Ester? — Indagou o Coronel Sobreira. —Desde o nosso reencontro tenho-a na mente e na oração. A falta de convivência entre nós, por circunstâncias superiores, não me facultou informá-lo de que hoje, ou melhor, há já alguns anos sou homem de fé. As experiências concederam-me ampla visão do mundo, além da esfera física, levando-me a entesourar valores extraordinários com que se harmonizou o meu ser, antes em duradoura agonia.
À sua semelhança conheci de perto a aduana que descamba ná loucura e não fosse a Misericórdia Divina teria sucumbido. Mercedes e eu provamos o pão ázimo do sofrimento, preparado com as lágrimas salgadas do desconforto...
Fez uma pausa, ensejando-se melhor coordenação de idéias e, simultaneamente, observou as reações dos ouvintes, O matrimônio Santamaria chorava discretamente. A senhora Mercedes, gentil, acarinhava a amiga, vergada ao peso do martírio.
De imediato prosseguiu o narrador:
— Vocês ignoram que o nosso filho Giórgio, há quatro anos atrás foi vítima de sórdida obsessão, tendo sido, face à minha ignorância, então, internado para penoso tratamento... Inesperadamente, ele que era jovial e transudava alegria de viver, tornou-se arredio, amargurado, sombrio. Tentamos arrancá-lo do mutismo a que se entregara, usando todas as possibilidades, sem qualquer resultado. Noivo, abandonou Lucília, sem explicações, e, freqüentando o período da conclusão do curso de Direito, deixou os estudos. Parecia temer o contato, a presença de outras pessoas... Retraiu-se a tal ponto que os necessários tratos de alimentação e higiene passaram a ser negligenciados para nosso desgosto superlativo...
“Foi nesse comemos que o dr. Ernesto Vialle, seu psiquiatra, sugeriu-nos interná-lo, a fim de que fosse submetido a rigorosa assistência especializada. “Vocês imaginam a nossa indescritível desolação. Submetemo-nos à adaga do sofrimento que nos decepava esperanças e sorrisos. Estávamos a sucumbir, quando o nosso Joel visitou-nos, e face ao nosso abatimento, informado das razões, prontificou-se ajudar-nos... Ouvindo-o, ante as alvíssaras que surgiam, renovamo-nos, dando início a nova vida, de que resultou o retorno da alegria a esta casa, transformada, então, em túmulo que sepultava angústias acerbas.. Por isso, convidamo-lo a estar conosco nesta noite, quando os recebemos com imenso carinho: Margarida e você.”
Tinha os olhos brilhantes pelas lágrimas.
— É psiquiatra, o nosso Tenente-Coronel? — interrogou o genitor de Ester, interessado.
— Não, não é psiquiatra — elucidou o anfitrião. — É um homem dotado de “sexto sentido”, de mediunidade.
Talvez pressentindo o rumo do esclarecimento, interpôs-se o Coronel Santamaria:
— Desculpe-me, no entanto, a minha ignorância é tal sobre essas questões, que me reservo a descrença, a entranhada antipatia a essas coisas..
- Ouça-me sem prevenção — interrompeu-o o amigo jovialmente. — Não se trata de “coisas”. A mediunidade é faculdade para-normal relevante, objeto de estudos nos Centros de maior cultura, atualmente, no globo. Investir contra, por preconceito, é arrematada idiotia, disfarçada em presunção.
“Vocês nos conhecem demasiado para terem uma opinião sobre o nosso caráter moral. Homem austero que sempre fui, indiferente e frio às manifestações místicas de qualquer procedência, temperado nos mesmos fornos em que você enrijou as fibras da dignidade, não me foi fácil mudar conceitos, opiniões, estruturas de fé. Religioso por hábito social, não possuía religiosidade de fato que me confortasse interiormente. Crer por acomodação, transformara-se em descrer por convicção.”
— Mas, — interferiu, contrafeito, — mediunidade não é algo que se vincula à necromancia, Espiritismo, candomblé?.
- Sem dúvida, — respondeu, sem perder a delicadeza — como a inteligência que está presente nos ideais libertadores, também se manifesta nos lúridos conciliábulos dos campos de concentração.
A mediunidade é, digamos, uma via de acesso. Por ela transitam os que viveram na Terra consoante as concessões de quem a governa.
— Todavia — voltou a interromper — os “que viveram na Terra”, estão mortos, aniquilados... E essas práticas de Espiritismo são-me detestáveis.
— Equívoco de sua parte, meu amigo. Também eu assim pensava. A realidade é bem outra.
— Por favor, Constâncio — interveio a esposa. — Ouçamos sem prevenção. Você crê que Epaminondas se permitiria crença ou atitude que lhe desabonasse a dignidade?
A pergunta oportuna, soou como uma reprimenda.
O ar saturava-se de vibrações superiores, magnetizado por Espíritos Felizes que se faziam inspiradores e condutores daquele encontro relevante.
Agradecendo a referência nobre que lhe fizera a dama, o Coronel Epaminondas justificou:
- Bem sei que tudo isto lhes parece estranho. Não poderia ser de outra forma. Conosco ocorreu o mesmo. Somos seres atrasados, fundamente marcados pela vaidade a que nos aferramos, supervalorizando-nos e, em conseqüência, tombando vítimados pela própria imprevidência.
“O Espiritismo, que a intolerância dos clérigos e cientistas do passado, muito ciosos da própria prosápia tachou de “doutrina satânica” e “fábrica de loucos”, respectivamente, ultrapassou a previsão maldosa dos seus detratores. Convenhamos que muitos homens ilustres, como religiosos honestos e pesquisadores conscientes estudaram-no e investigaram-no experimentalmente, à saciedade, concluindo pela legitimidade dos fatos observados e pela excelência dos seus postulados. Todos quantos o combatem jamais o estudaram ou conheceram suas múltiplas facetas, quer no campo científico, filosófico ou religioso. Guerreiam-no pela empáfia de que se revestem e pela preguiça de se atualizarem. São os tradicionais inimigos do progresso, das idéias novas... Fazem-no como você hoje e eu ontem, mal informados, que nos fechamos e abjuramos o que desconhecemos, apertados na constrição das vaidades feridas... Todavia, esta é uma discussão ético filosófica de largo porte, que não se coaduna com a premência de tempo, do momento. Fornecer-lhes-ei literatura especializada sobre o assunto, especialmente a que responde pelas suas bases doutrinárias: Kardec, Denis, Bozzanno...”
Sorriu, descarregando a ligeira tensão que sobrepairava no ambiente.
- O importante — deu curso às elucidações — é que, através da mediunidade do nosso caro colega de farda, o Giórgio recobrou a saúde.
— E não seria o tratamento — solícitou esclarecimentos o Coronel - Santamaria — a que ele estava sendo submetido, a causa da recuperação da sua saúde?
— Sim, não poderia sê-lo? — Também indagou dona Margarida.
— Poderia ter sido — explicou. — A princípio, quedei-me em dúvida, no primeiro instante... Nossa família jamais se envolvera antes com qualquer prática mediúnica, qual ocorre com vocês, todavia, Giórgio e Ester... o que atesta que não é o Espiritismo a causa da loucura, antes...
— Não digo que seja a causa — argumentou — mas uma causa.
— Bem, como outro fator qualquer de ordem social, emocional, comunitária, religiosa, além daqueles de procedência orgânica... Porém, como as causas estão presentes em quase todos os cometimentos, na condição de fatores predisponentes uns, preponderantes outros, ninguém se atreve a acusá-los, como fazem em relação ao Espiritismo, não é mesmo?
— Tem razão...
— O nosso afeiçoado Joel — prosseguiu — em contato com os Espíritos que o assistem e amparam, no ministério da caridade a que se afervora, dedicado, soube que a loucura do Giórgio tinha procedência numa obsessão de natureza espiritual, graças a razões pregressas do seu e dos nossos Espíritos... Explicou-nos o mecanismo da justiça divina, através da reencarnação, de forma lógica e irrefutável, propondo-se levar-nos a participar de algumas sessões mediúnicas especializadas, onde a venda nos caiu dos olhos, ensejando-nos sublime “estrada de Damasco”. Desde o primeiro tentame, a melhora do filho fez-se imediata... Passamos a ser espiritualmente informados do quanto com ele ocorria, até o momento do encontro com o seu perseguidor, que nos sensibilizou mediante a narração dos seus padecimentos.
Não foi fácil. Nada é fácil. Todo e qualquer empreendimento é sempre complexo, mesmo quando conhecido pela sua simplicidade, particularmente aquele que diz respeito à vida, à alma reencarnada...
Na interrupção que se fizera natural, podia-se sentir o concentrado interesse dos convidados, ouvindo religiosa, comovidamente. Mãos e mentes vigorosas aplicavam passes nos circunstantes, dilatando o entendimento, a percepção dos neófitos na palpitante questão, libertando-os, também, dos fluídos e miasmas perniciosos que os envenenavam, turbando-lhes o discernimento.
— Duas, três semanas transcorridas — ratificou, — nosso filho estava curado, voltava ao lar, tranqüilo e diligente quanto antes, assim prosseguindo até hoje.
“Ora, desejávamos a sua e a permissão da Margarida para examinarmos mediunicamente o problema de Ester. Depois de amanhã é dia de sessão na Sociedade que freqüentamos e a oportunidade parece-nos lisonjeira. Em processos que tais, o tempo é muito importante, a fim de evitar-se que surjam difíceis condicionamentos no paciente, molestas e complicadas lesões... Dar-lhes-emos notícias detalhadas e concertaremos atitudes, programas.”
— Concordo, de minha parte, — apressou-se a senhora —sem pestanejar.
— Até há pouco — acrescentou o Coronel Santamaria — preteria-a louca a metida com essas... Diante da sua argumentação, da confiança que nos identifica, não há como discordar, embora o estranho que tudo isso me parece...
— É perfeitamente lógico e você não poderia ter outra reação.
O Tenente-Coronel tudo escutava em silêncio, com modéstia surpreendente.
— O senhor está viúvo há pouco — indagou-lhe o visitante —e parece-me tranqüilo, confortado. A morte é-me tão desagradável para não dizer cruel, O senhor, sendo jovem, não se rebelou?
— Não. — Redargüiu o médium com simplicidade. — Minha Isabel, como eu, militava nas hostes espíritas... Sinto-lhe a falta física no lar, não a ausência total, porqüanto, estando viva, comunicamo-nos vez que outra. Inteirado e consciente da imortalidade, preparo-me para o encontro definitivo, mais tarde.
Como não há morte, a problemática se constitui apenas de tempo e fé. O tempo reunir-nos-á e a fé ajudar-nos-á vencê-lo.
— Que bela Doutrina! — Exclamou dona Margarida. — Como se pode ter um conceito desse, ante o terrível flagelo da morte?
- Pela certeza — disse a senhora Mercedes — incondicional da sobrevivência. Nós que somos mães, não conseguimos sustentar a esperança quando falecem todos os recursos, graças ao amor? O mesmo amor que não desaparece nem se desarticula, ante a injunção da orgânica, é a fonte geradora dessa tranqüilidade adquirida mediante os fatos do intercâmbio espiritual de todo dia.
- Gostaríamos, já que estamos concordes — propôs o Coronel Sobreira, — que orássemos, realizando a primeira rogativa em prol de Ester, mediante a terapêutica espírita.
Como todos aquiescessem, o anfitrião desatou superior emotividade e orou de forma surpreendente, em perfeita sintonia com as Entidades presentes.
Concluída a prece, um silêncio se abateu sobre o grupo e Joel, com o semblante visivelmente transfigurado, transmitiu significativa mensagem de conforto e esperança, ante a natural arguta curiosidade dos Santamarias.
A oportunidade fora excepcional.
Às despedidas, reconhecidos, os pais de Ester com raciocínios variados, partiram, aguardando o futuro, enquanto a escumilha da noite piscava estrelas, no alto, a distância...

QUESTÕES PARA ESTUDO

1 – De que modo a história de vida do Coronel Epaminondas se relacionava com a dos Santamaria?

2 – Quem era do Tenente-Coronel Joel e como ele ajudou a família de Coronel Epaminondas?

3 – “— Até há pouco — acrescentou o Coronel Santamaria — preteria-a louca a metida com essas...” Essa expressão ainda é muito comum diante da possibilidade de início de tratamento espiritual. Como contornar tal situação?

Bom estudo a todos!! Participem!!

Equipe Manoel Philomeno
  Conclusão deste estudo 
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