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Dominação telepática (Estudo 19 de 30)

       

Dominação telepática
Dispúnhamo-nos à despedida, quando simpática senhora desencarnada
abeirou-se de nós, cumprimentando o Assistente com respeitosa afetividade.
Áulus incumbiu-se da apresentação.
- É a irmã Teonília, uma de nossas diligentes companheiras no trabalho
assistencial.
A nova amiga correspondeu-nos às saudações com gentileza e explicou ao nosso
orientador o objetivo que a trazia.
Contou, então, que Anésia, devotada companheira da instituição em que nos
achávamos, sorvia o fel de dura prova.
Além das preocupações naturais com a educação das três filhinhas e com a
assistência imprescindível à mãezinha doente, em vésperas de desencarnação,
sofria tremenda luta íntima, de vez que Jovino, o esposo, vivia agora sob a
estranha fascinação de outra mulher. Esquecera-se, invigilante, das
obrigações no santuário doméstico. Parecia, de todo, desinteressado da
companheira e das filhas. Como que voltara às estroinices da primeira
juventude, qual se nunca houvesse abraçado a missão de pai.
Dia e noite, deixava-se dominar pelos pensamentos da nova mulher que o
enlaçara na armadilha de mentirosos encantos.
Em casa, nas atividades da profissão ou na via pública, era ela, sempre ela
a senhorear-lhe a mente desprevenida.
Transformara-se o mísero num obsidiado autêntico, sob constante atuação da
criatura que lhe anestesiava o senso de responsabilidade para consigo mesmo.
Não poderia Áulus interferir?
Não seria justo afastar semelhante influência, como se extirpa uma chaga com
o socorro operatório?
O Assistente ouviu-a com calma e falou, conciso:
- Conheço Anésia e nela estimo admirável irmã. Há meses, não disponho de
oportunidade para visitá-la como venho desejando. Decerto, não me negarei ao
concurso fraterno, entretanto, não será conveniente estabelecer medidas
drásticas sem uma auscultação do caso em si. Sabemos que a obsessão entre
desencarnados ou encarnados, sob qualquer prisma em que se mostre, é uma
enfermidade mental, reclamando por vezes tratamento de longo curso. Quem
sabe se o pobre Jovino não estará na condição de um pássaro hipnotizado, não
obstante o corpanzil que lhe confere aparências de robustez no plano físico?
- Do que posso perceber - anotou a interlocutora -, vejo tão-somente um
homem comprometido em trabalho digno, ameaçado por perversa mulher...
- Oh! Não! - atalhou o nosso instrutor condescendente -, não a classifique
com semelhante adjetivação. Acima de tudo, é imperioso aceita-la por infeliz
irmã.
- Sim, sim... concordo - exclamou Teonília, reajustando-se. - De qualquer
modo, rogo-lhe a caridosa intercessão. Anésia tem sido uma colaboradora
providencial em nossa tarefa. Não me sentiria satisfeita, cruzando os
braços...
- Faremos quanto se nos afigure viável no círculo de nossas possibilidades,
contudo, é imprescindível analisar o passado para concluir sobre as raízes
da ligação indébita a que nos reportamos.
E, imprimindo grave tonalidade à voz, o Assistente enunciou:
- Estará descendo Jovino a impressões do pretérito? Não será uma provação
que o nosso amigo terá traçado à própria consciência, com finalidade
redentora, e à qual não sabe agora como resistir?
Teonília esboçou um gesto de humildade silenciosa, enquanto Áulus rematava,
afagando-lhe os ombros:
- Guardemos otimismo e confiança. Amanhã, à noitinha, conte conosco no lar
de Anésia. Sondaremos, de perto, quanto nos caiba fazer.
Nossa amiga, expressou reconhecimento e despediu-se sorrindo.
A sós conosco, durante o regresso ao nosso templo de trabalho e de estudo,
áulus salientou a nossa oportunidade de prosseguir observando. O assunto
prendia-se naturalmente a problema de influênciação e teríamos ensejo de
examinar fenômenos mediúnicos importantes, na esfera vulgar da experiência
de muitos.
Com efeito, em momento preestabelecido, reunimo-nos no dia seguinte para a
excursão programada.
Atingimos a estação de destino ao anoitecer.
Teonília aguardava-nos no pórtico de domicílio confortável, sem ser luxuoso.
Pequeno roseiral à entrada dizia sem palavras dos belos sentimentos dos
moradores.
Guiados por nossa amiga, alcançamos o interior doméstico.
A família entregava-se à refeição.
Uma senhora jovem servia atenciosamente a um cavalheiro maduro e bem-posto,
ladeado por três meninas, das quais a mais moça revelava a graça primaveril
dos catorze a quinze anos.
Claro que o entendimento da véspera dispensava novas informações. Áulus, no
entanto, esclareceu, minucioso:
- Anésia e Jovino acham-se aqui com as filhinhas Marcina, Marta e Márcia.
A palestra familiar desdobrava-se afetuosa, mas o dono da casa parecia
contrafeito. Doces apontamentos das meninas não lhe arrancavam o mais leve
sorriso. Contudo, enquanto o genitor timbrava em mostrar-se aborrecido, a
mãezinha se fazia mais terna e mais contente, incentivando a conversação das
duas filhas mais velhas que comentavam episódios humorísticos dos bazar de
quinquilharias em que trabalhavam juntas.
Findo o jantar, a senhora dirigiu-se à mais moça e recomendou com carinho:
- Márcia, minha filha, volte à vovó e espere por mim. Nossa doente não deve
estar a sós.
A pequena obedeceu de bom grado e, transcorridos alguns instantes, Marcina e
Marta demandaram sala próxima, em palestra mais íntima.
Dona Anésia reajustou a copa e a cozinha, operando em silêncio, enquanto o
marido se esparramava numa poltrona, devorando os jornais vespertinos.
Reparando, todavia, que o esposo se levantara para sair, endereçou-lhe olhar
inquieto e indagou, delicadamente:
- Poderemos, acaso, esperar hoje por você?
- Hoje? Hoje?... - redargüiu o interlocutor sem fixa-la.
E o diálogo prosseguiu, animadamente.
- Sim, um pouco mais tarde; faremos nossas preces em conjunto...
- Preces? Para que isso?
- Sinceramente, Jovino, creio no poder da oração e suponho que nunca
precisamos tanto como agora de usá-la em favor de nossa tranqüilidade
doméstica.
- Não disponho de tempo para lidar com os seus tabus. Tenho compromissos
inadiáveis. Estudarei, junto de amigos, excelente negócio.
Nesse instante, contudo, surpreendente imagem de mulher surgiu-lhe à frente
dos olhos, qual se fora projetada sobre ele a distância, aparecendo e
desaparecendo com intermitências.
Jovino fez-se mais distraído, mais enfadado.
Fitava agora a esposa com indiferença irônica, demonstrando inexcedível
dureza espiritual.
Intrigados com o fenômeno sob nossa vista, ouvimos Anésia que, enlaçada por
Teonília, dizia quase suplicante:
- Jovino, você não concorda que temos estado mais ausente um do outro,
quando precisamos estar mais juntos?
- Ora, ora! Deixe de pieguices! Sua preocupação seria própria, há vinte
anos, quando não éramos senão tolos colegiais!
- Não, não é bem isso... Inquietam-me nosso lar e nossas filhas...
- De minha parte, não vejo como torturar-me. Creio que a casa está bem
provida e não estou dormindo sobre nossos interesses familiares. Meus
negócios estão em movimento. Preciso de dinheiro e, por essa razão, não
posso perder tempo com beatices e petitórios, endereçados a um Deus que, sem
dúvida, deve estar muito satisfeito em morar no Céu, sem lembrar-se deste
mundo...
Anésia dispunha-se a revidar, no entanto, a atitude do marido era tão
flagrantemente escarnecedora que, decerto, julgou mais oportuno silenciar.
O chefe da família, depois de apurar o nó da gravata vivamente colorida,
bateu a porta estrepitosamente sobre os próprios passos e retirou-se.
A companheira humilhada caiu em pranto silencioso sobre velha poltrona e
começou a pensar, articulando frases sem palavras:
- "Negócios, negócios... Quanta mentira sobre mentira! Uma nova mulher, isso
sim!... Mulher sem coração que não nos vê os problemas... Dívidas,
trabalhos, canseiras! Nossa casa hipotecada, nossa velhinha a morrer!...
Nossas filhas cedo arremessadas à luta pela própria subsistência!"
Enquanto as reflexões dela se faziam audíveis para nós, irradiando-se na
sala estreita, vimos de novo a mesma figura de mulher que surgira à frente
de Jovino, aparecendo e reaparecendo ao redor da esposa triste, como que a
fustigar-lhe o coração com invisíveis estiletes de angústia, porque Anésia
acusava agora indefinível mal-estar.
Não via com os olhos a estranha e indesejável visita, no entanto,
assinalava-lhe a presença em forma de incoercível tribulação mental. De
inesperado, passou da meditação pacífica a tempestuosos pensamentos.
- "Lembro-me dela, sim - refletia agora em franco desespero - conheço-a! É
uma boneca de perversidade... Há muito tempo vem sendo um veículo de
perturbação para a nossa casa. Jovino está modificado... Abandona-nos, pouco
a pouco. Parece detestar até mesmo a oração... Ah! Que horrível criatura uma
adversária qual essa, que se imiscui em nossa existência à maneira da víbora
traiçoeira! Se eu pudesse haveria de esmaga-la com os meus pés, mas hoje
guardo uma fé religiosa, que me forra o coração contra a violência..."
À medida, porém, que Anésia monologava intimamente em termos de revide, a
imagem projetada de longe abeirava-se dela com maior intensidade, como que a
corporificar-se no ambiente para infundir-lhe mais amplo mal-estar.
A mulher que empolgava o espírito de Jovino ali surgia agora visivelmente
materializada aos nossos olhos.
E as duas, assumindo a posição de francas inimigas, passaram à contenda
mental.
Lembranças amargas, palavras duras, recíprocas acusações.
A esposa atormentada passou a sentir desagradáveis sensações orgânicas.
O sangue afluía-lhe com abundância à cabeça, impondo-lhe aflitiva tensão
cerebral.
Quanto mais se lhe dilatavam os pensamentos de revolta e amargura, mais se
lhe avultava o desequilíbrio físico.
Teonília afagou-a,carinhosa, e informou ao nosso orientador:
- Há muitas semanas diariamente se repete o conflito. Temo pela saúde de
nossa companheira.
Áulus deu-se pressa em aplicar-lhe recursos magnéticos de alívio e, desde
então, as manifestações estranhas diminuíram até completa cessação.
Efetivado o reajustamento relativo de Anésia e percebendo-nos a curiosidade,
o Assistente esclareceu:
- Jovino permanece atualmente sob imperiosa dominação telepática, a que se
rendeu facilmente, e, considerando-se que marido e mulher respiram em regime
de influência mútua, a atuação que o nosso amigo vem sofrendo envolve
Anésia, atingindo-a de modo lastimável, porquanto a pobrezinha não tem
sabido imunizar-se, com os benefícios do perdão incondicional.
Hilário, intrigado, perguntou:
- Examinamos, porém, um fenômeno comum?
- Intensamente generalizado. É a influenciação de almas encarnadas entre si
que, às vezes alcança o clima de perigosa obsessão. Milhões de lares podem
ser comparados a trincheiras de luta, em que pensamentos guerreiam
pensamentos, assumindo as mais diversas formas de angústias e repulsão.
- E poderíamos enquadrar o assunto nos domínios da mediunidade?
- Perfeitamente, cabendo-nos acrescentar ainda que o fenômeno pertence à
sintonia. Muitos processos de alienação mental guardam nele as origens.
Muitas vezes, dentro do mesmo lar, da mesma família ou da mesma instituição,
adversários ferrenhos do passado se reencontram. Chamados pela Esfera
Superior ao reajuste, raramente conseguem superar a aversão de que se vêem
possuídos, uns à frente dos outros, e alimentam com paixão, no imo de si
mesmos, os raios tóxicos da antipatia que, concentrados, se transformam em
venenos magnéticos, suscetíveis de provocar a enfermidade e a morte. Para
isso, não será necessário que a perseguição recíproca se expresse em
contendas visíveis. Bastam as vibrações silenciosas de crueldade e despeito,
ódio e ciúme, violência e desespero, as quais, alimentadas, de parte a
parte, consti tuem corrosivos destruidores.
Finda ligeira pausa, o Assistente continuou:
- O pensamento exterioriza-se e projeta-se, formando imagens e sugestões que
arremessa sobre os objetivos que se propõe atingir. Quando benigno e
edificante, ajusta-se às Leis que nos regem, criando harmonia e felicidade,
todavia, quando desequilibrado e deprimente, estabelece aflição e ruína. A
química mental vive na base de todas as transformações, porque realmente
evoluímos em profunda comunhão telepática com todos aqueles encarnados ou
desencarnados que se afinam conosco.
- E como solucionar o problema da antipatia contra nós? - indagou meu
companheiro com interesse.
Áulus sorriu e respondeu:
- A melhor maneira de extinguir o foco é recusar-lhe combustível. A
fraternidade operante será sempre o remédio eficaz, ante as perturbações
dessa natureza. Por isso mesmo, o Cristo aconselhava-nos o amor aos
adversários, o auxílio aos que nos perseguem e a oração pelos que nos
caluniam, como atitude indispensável à garantia de nossa paz e de nossa
vitória.
Nesse instante, porém, Anésia consultara o relógio e reerguera-se.
Vinte horas.
Era o momento preciso de suas preces junto da mãezinha doente, e
acompanhamo-la, atenciosos, a fim de igualmente orarmos.


(1) Nós já tivemos visto e considerado a realidade da temática obsessiva em
nossas vidas. Lembramos quais as causas que as geram?

(2) Invariavelmente temos a predisposição de fazer rogativas a nossos guias
espirituais para que nos favoreçam as disposições naqueles momentos.
Contudo, que poderão eles fazer?

(3) Muitas vezes, as dificuldades que enfrentamos tem suas raízes em nosso
ontem. Como reconheceremos essas probabilidades?

(4) Quais os elementos que delatam a manifestação da influenciação
espiritual perturbadora?

(5) Quando somos visitados por situações tão molestas, pode a prece ser
feita com bons resultados?

(6) Estabelecida a conexão mental entre os seres afins, ela poderá
manifestar-se de variadas formas. Neste caso o livro nos assinala uma. Não
pudendo ela ser perceptível com clareza porque ela toca elementos peculiares
de nós, como desvencilhar-se de sua influência?

(7) Pode a influência obsessiva estender-se ao Grupo Familiar?
a - Como empregar o conhecimento espírita em estos casos?
b - O investimento pode alcançar ainda a parte física dos involucrados?
c - Por que a influenciação se estende a os outros?

(8) Podemos esperar ser tocados por semelhante fenômeno?

(9) Por que se faz necessário tomar em conta estas situações?

(10) Qual o remédio mais eficaz para dissolver uma má influencia?

(11) Analicemos a oração:
"Jovino permanece atualmente sob imperiosa dominação telepática, a que se
rendeu facilmente, e, considerando-se que marido e mulher respiram em regime
de influência mútua, a atuação que o nosso amigo vem sofrendo envolve
Anésia, atingindo-a de modo lastimável, porquanto a pobrezinha não tem
sabido imunizar-se, com os benefícios do perdão incondicional."
  Conclusão deste estudo 
1998-2009 | CVDEE - Centro Virtual de Divulgação e Estudo do Espiritismo