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Quadro doloroso (Estudo 7 de 20)

       

Caros amigos,

Segue as questões referentes a mais um capítulo de
Libertação, saga edificante narrada por André Luiz.

Que Jesus abençoe a todos.



Livro: Libertação
Tema: Quadro doloroso
Capítulo: VII


Quadro Doloroso

De manhã, um emissário do sacerdote Gregório, com
semblante mal humorado, veio notificar-nos, em nome
dele, que dispúnhamos de liberdade até as primeiras
horas da tarde, quando nos receberia para entendimento
particular.

Ausentamo-nos do cubículo, sinceramente desafogados.

A noite fora simplesmente aflitiva, pelo menos para
mim que não conseguira qualquer quietação no repouso.
Não somente o ruído exterior se fizera contínuo e
desagradável, mas também a atmosfera pesava,
asfixiante. As alucinadoras conversações me
perturbavam e feriam.

Convidou-nos Gúbio a pequena excursão educativa,
asseverando-me bondoso:

- Vejamos, André, se poderemos aproveitar alguns
minutos, estudando os "ovóides".

Elói e eu acompanhamo-lo, satisfeitos.

Coalhava-se a rua de tipos característicos da
anormalidade deprimente.

(...)

O instrutor informou-nos, então, com muito acerto, de
que as mentes extraviadas, de modo geral, lutam com
idéias fixas, implacáveis e obcecantes, gastando longo
tempo a fim de se reajustarem. Rebaixadas pelas
próprias ações, perdem a noção do bom-gosto, do
conforto construtivo, da beleza santificante e se
entregam a lastimável relaxamento.

(...)

Gritos humanos, filhos da dor e da inconsciência, eram
frequentes, provocando-nos sincera piedade. Fossem
poucos os transeuntes infelizes e poder-se-ia pensar
num serviço metódico de assistência individual; mas
que dizer de uma cidade constituída por milhares de
loucos declarados ? Dentro de colmeia dessa natureza,
o homem sadio que tentasse impor socorro ao espírito
geral não seria efetivamente o alienado mental, aos
olhos alheios ? Impraticável, por isso, qualquer
organização beneficente visível, a não ser através de
serviço arriscado qual aquele de que o nosso Instrutor
se incumbira, tocado pela renúncia, na obra de
santificação com o Cristo.

(...)

Elói, forçando o bom humor, perguntou, a propósito,
se o inferno era um hospício de proporções assim tão
vastas, ao que nosso orientador respondeu aquiescendo
e informando que o homem comum não possui senão vaga
idéia da importância das criações mentais na própria
vida.

A mente estuda, arquiteta, determina e materializa os
desejos que lhe são peculiares na matéria que a
circunda, esclareceu Gúbio, atencioso, e essa matéria
que lhe plasma os impulsos é sempre formada por vidas
inferiores inumeráveis, em processo evolutivo, nos
quadros do Universo sem fim.

Marcháramos, atravessando compridos labirintos e
achamo-nos diante de extensa edificação que, com boa
vontade, nomearemos por asilo de Espíritos
desamparados.

Enquanto encarnado, ser-me-ia extremamente difícil
acreditar numa cena igual à que nos desdobrou à visão
inquieta. Nenhum sofrimento, depois da morte do corpo
me tocara tão fundo o coração.

A gritaria em torno, era de espantar.

Varamos lodosa muralha e, depois de avançarmos alguns
passos, o pavoroso quadro se abriu dilatadamente.
Largo e profundo vale se estendia, habitado por toda a
espécie de padecimentos imagináveis.

Sentíamo-nos, agora, na extremidade de um planalto
que se quebrava em abrupto despenhadeiro.

(...)

Tremeram-me as fibras mais íntimas, e, não só em mim,
mas igualmente no espírito de Elói, o movimento era de
recuo instintivo.

O orientador, no entanto, estava firme.

Longe de endossar-nos a fraqueza, ignorou-a,
deliberadamente, e asseverou, calmo:

- Amontoam-se aqui, como se fossem lenhos secos,
milhares de criaturas que abusaram de sagrados dons da
vida. São réus da própria consciência, personalidades
que alcançaram a sobrevivência sobre as ruínas do
próprio "eu", confinados em escuro setor de alienação
mental. Esgotam resíduos envenenados que acumularam na
esfera íntima, através de longos anos vazios de
trabalho edificante, no mundo físico, entregando-se,
presentemente, a infindáveis dias de tortura
edificante.

E, talvez porque nosso espanto crescesse à vista da
tela aflitiva e tenebrosa, acrescentou, sereno:

- Não estamos contemplando senão a superfície de
trevosos cárceres a se confundirem com os precipícios
subcrostais.

- Mas não haverá recurso a tanto desamparo ? - indagou
Elói, compungidamente.

Gúbio refletiu alguns momentos rápidos e aduziu em tom
grave:

- Quando encontramos um morto de cada vez, é fácil
conceder-lhe sepultura condigna, mas, se os cadáveres
são contados por multidões, nada nos resta senão
adotar a vala comum. Todos os Espíritos renascem nos
círculos carnais para destruírem os ídolos da mentira
e da sombra e entronizarem, dentro de si mesmos, os
princípios da sublimação vitoriosa para a eternidade,
quando não se encontram em simples estrada evolutiva;
contudo, nas demonstrações de ordem superior que lhes
cabem, preferem, na maioria das ocasiões, adorar a
morte na ociosidade, na ignorância agressiva ou ao
crime disfarçado, olvidando a gloriosa imortalidade
que lhes compete atingir. Ao invés de estruturarem
destino santificante, com vistas ao porvir infinito,
menosprezam oportunidades de crescimento, fogem ao
aprendizado salutar e contraem débitos clamorosos,
retardando a obra de elevação própria. E se eles
mesmos, senhores de preciosos dons de inteligência,
com todo o acervode revelações religiosas de que
dispõem para solucionar os problemas da alma, se
confiam voluntariamente a semelhante atraso, que nos
resta fazer senão seguir nas linhas de paciência por
onde se regula a influenciação dos nossos benfeitores
? Sem dúvida, esta paisagem é inquietante e
angustiosa, mas compreensível e necessária.

Perguntei-lhe se naqueles sítios purgatoriais não
havia companheiros amigos, detentores da missão de
consolar, ao que nosso Instrutor respondeu
afirmativamente.

- Sim - disse -, esta imensa coletividade, dentro da
qual preponderam individualidades que pelo sofrimento
contínuo se caracterizam pelo comportamento
sub-humano, não está esquecida. A renúncia opera com
Jesus, em toda a parte. (...)

Descemos alguns metros e encontramos esquálida mulher
estendida no solo.

Gúbio nela fixou os olhos muito lúcidos e, depois de
alguns momentos, recomendou-nos seguir-lhe a
observação acurada.

(...)

Percebi que a infeliz se cercava de três forma
ovóides, diferençadas entre si nas disposições e nas
cores, que me seriam, porém, imperceptíveis aos olhos,
caso não desenvolvesse, ali, todo o meu potencial de
atenção.

(...)

Elucidou Gúbio, sem detença:

- São entidades infortunadas, entregues aos propósitos
de vingança e que perderam grandes patrimônios de
tempo, em virtude da revolta que lhes atormenta o ser.
Gastaram o perispírito, sob inenarráveis tormentas de
desesperação, e imantam-se, naturalmente, à mulher que
odeiam, irmã esta que, por sua vez, ainda não
descobriu que a ciência de amar é a ciência de
libertar, iluminar e redimir.

Auscultamos, de mais perto, a desventurada criatura.

Assumiu Gúbio a atitude de médico ante a paciente e os
aprendizes.

A mulher sofredora, envolvida num halo de "força
cinzento-escura", registrou-nos a presença e gritou,
entre a aflição e a idiotia:

- Joaquim ! onde está Joaquim ? digam-me, por piedade
! para onde o levaram ? ajudem-me ! ajudem-me !

O nosso orientador tranquilizou-a com algumas palavras
e, não lhe conferindo maior atenção, além daquela que
o psiquiatra dispensa ao enfermo em crise grave,
observou-nos:

- Examinem os ovóides ! sondem-nos, magnéticamente,
com as mãos.

Operei, expedito.

Toquei o primeiro e notei que reagia, positivamente.

Liguei, num ato de vontade, minha capacidade de ouvir
ao campo íntimo da forma e, assombrado, ouvi gemidos e
frases, como que longínquos, pelo fio do pensamento:

- Vingança ! vingança ! Não descansarei até ao fim ...
Esta mulher infame me pagará ...

Repeti a experiência com os dois outros e os
resultados foram idênticos.

As exclamações <>
transbordavam de cada um.

Após afagar a doente com fraternal carinho,
analisando-a, atencioso, o Instrutor dirigiu-nos a
palavra, esclarecendo:

- Joaquim será naturalmente o companheiro que a
precedeu nas lides da reencarnação. Certo, já
regressou à Terra mais densa, a fim de preparar-lhe
lugar. A pobrezinha está esperando ensejo de retorno à
luta benéfica. Vejo-lhe o drama cruel. Foi tirânica
senhora de escravos no século que findou. (...) Foi
jovem e bela, mas desposou, consoante o programa de
provas salvadoras, um cavalheiro de idade madura, que,
a seu turno, já assumira compromissos sentimentais com
humilde filha do cativeiro. Embora a mudança natural
de vida, à face do casamento, não abandonou ele o
débito contraído. Em razão disso, a pobre mãe e
escrava, ainda moça, penitente e desditosa, prosseguiu
agregada à propriedade rural com os rebentos de seu
amor menos feliz. Com a passagem do tempo, a esposa
requestada e fascinante conheceu toda a extensão do
assunto e revelou a irascibilidade que lhe povoava a
alma. Dirigiu-se ao marido, colérica e violenta,
dobrando-o aos caprichos que lhe exacerbavam a mente.
A escrava sofredora foi separada de ambos os filhos
que possuía e vendida para uma região palustre onde em
breve encontrou a morte pela febre maligna. Os dois
rapazes, metidos no tronco, padeceram vexames e
flagelações em frente da senzala. Acusados de ladrões,
pelo capataz, a instâncias da senhora dominada de
egoísmo terrificante, passaram a exibir pesada
corrente no pescoço ferido. Viveram, no passado, sob
humilhações incessantes. No curso de reduzidos meses
caíram sem remissão, minados pela tuberculose que
ninguém socorreu. Desencarnados,, reuniram-se à
genitora revoltada, formando um trio perturbador na
organização ruralista que os expulsara, sustentando
sinistros propósitos de desforço. Não obstante
convidados à tolerância e ao perdão por amigos
espirituais que os visitavam frequentemente, nunca
cederam um til nos planos sombrios em que penhoraram o
coração. Atacaram desapiedados, a mulher que os
tratara com dureza, impondo-lhe destrutivo remorso ao
espírito vacilante e fraco. Dominando-lhe a vida
psíquica, transformaram-se em perigosos carrascos
invisíveis, utilizando todos os processos de luta
suscetíveis de acentuar-lhe as perturbações. Adoeceu
ela, por isso, gravemente, desafiando conselhos e
mediadas de cura. Embora socorrida por médicos e
padres diversos, não mais recobrou o equilíbrio
orgânico. Arrasou-se-lhe o corpo físico, a pouco e
pouco. Incapaz de expandir-se mentalmente, no
idealismo superior, que corrige desvarios íntimos e
facilita a cooperação vibratória das almas que
respiram em esferas mais elevadas, a desditosa
fazendeira sofreu, insulada no orgulho destrutivo que
lhe assinalava o caminho, dez anos de mágoas
constantes e indefiníveis. Claro que possuía amigos
prontos a lhe estenderem generosas mãos por ocasião da
morte do corpo que se tornou inevitável; contudo,
quando nos enceguecemos no mal, inabilitamo-nos, por
nós mesmos, à recepção de qualquer recurso do bem.

(...)

- Exonerada dos liames carnais, viu-se perseguida
pelas vítimas de outro tempo, anulando-se-lhe a
capacidade de iniciativa em virtude das emissões
vibratórias do próprio medo perturbador. Padeceu
muitíssimo, não obstante contemplada pela compaixão de
benfeitores do Alto que sempre tentaram conduzi-la à
humildade e à renovação pelo amor, mas o ódio
permutado é uma fornalha ardente, mantenedora de
cegueira e sublevação. Desencarnado o esposo, veio
semilouco encontrá-la no mesmo invencível abatimento,
incapaz de socorrê-la em vista das próprias dores que
o constrangiam a difíceis retificações. Os impiedosos
adversários prosseguiram na obra deplorável e ainda
mesmo depois de perderem a organização perispirítica,
aderiram a ela, com os princípios de matéria mental em
que se revestem. A revolta e o pavor do desconhecido,
com absoluta ausência de perdão, ligam-nos uns aos
outros, quais algemas de bronze. A infeliz perseguida,
na posição em que se encontra, não os vê, não os
apalpa, mas sente-lhes a presença e ouve-lhes as
vozes, através da inconfundível acústica da
consciência. Vive atormentada sem direção. Tem o
comportamento de um ser quase irresponsável.

A infortunada criatura não parecia registrar as
informações, ditas ali em voz alta, e que lhe diziam
respeito. Clamava amedrontada, pelo auxílio do
companheiro.

Vali-me ainda do ensejo para algumas indagações.

- Diante deste quadro comovedor, como encarar a
solução ? - desfechei a pergunta direta.

Gúbio, todavia, observou, muito calmo:

(...)

- Tudo me faz crer que os missionários da caridade já
lhe reconduziram o esposo às correntes da reencarnação
e é de supor que esta irmã se ache em vias de
seguir-lhe as pegadas, a breve tempo. Naturalmente,
renascerá em círculos de vida torturada, enfrentando
obstáculos imensos para reencontrar o ex-esposo e
partilhar-lhe as experiências futuras. Então ...

- Os inimigos ser-lhe-ão filhos ? - indaguei, ansioso,
quebrando-lhe as reticências.

- Como não ? Certamente, o caso já se encontra sob a
jurisdição superior. Esta mulher retornará à carne,
seguida pelas mentes dos adversários que aguardarão,
junto dela, o tempo de imersão nos fluidos terrestres.

- Oh ! - exclamei, profundamente espantado - não se
separará dos perseguidores, nem mesmo para o regresso
? Tenho acompanhado reencarnações que invariavelmente
se fazem seguidas de cautelas especiais ...

- Sim, André - concordou o Instrutor - reparaste nos
processos em que funcionaram elementos intercessores
de vulto, atendendo-se à nobilitante missão dos
interessados no futuro e, com o auxílio divino,
semelhantes casos contam-se por milhões. Contudo
existem, ainda, nos setores da luta humana que tornam
ao mergulho da carne premidas pela compulsória do
Plano Superior, de modo a expiarem delitos graves. Em
ocorrências dessa ordem, a individualidade responsável
pela desarmonia reinante converte-se em centro de
gravitação das consequencias desequilibradas por sua
culpa e assume o comando dos trabalhos de
reajustamento, sempre longos e complicados, de acordo
com os ditames da Lei.

Compreendendo meu assombro, Gúbio considerou:

- Por que a estranheza ? Os princípios de atração
governam o Universo inteiro. Nos sistemas planetários
e nos sistemas atômicos vemos o núcleo e os satélites.
Na vida espiritual, os ascendentes essenciais não
diferem. Se os bons representam centros de atenção dos
Espíritos que se lhes afinam pelos ideais e
tendências, os grandes delinqüentes se transformam em
núcleos magnéticos das mentes que se extraviaram da
senda reta, em obediência a eles. Elevamo-nos com
aqueles que amamos e redimimos ou rebaixamo-nos com
aqueles que perseguimos e odiamos.

As afirmativas inspiravam-me profundos pensamentos,
quanto à grandeza das leis que regem a vida e, atento
à meditação daquele instante, evitei novas perguntas.

O Instrutor acariciou a fronte da criatura
desventurada, envolvendo-a, intencionalmente, numa
benção de fluidos divinos e acrescentou:

- Pobre irmã ! que o Céu a fortaleça na jornada por
empreender ! Seguida de perto pela influência dos
seres que com ela se projetaram no abismo mental do
ódio, terá infância dolorosa e sombria pelos pesares
desconhecidos que se lhe acumularão,
incompreensivelmente, na alma opressa. Conhecerá
enfermidades de diagnose impossível, por enquanto, no
quadro dos conhecimentos humanos, por se originarem da
persistente e invisível atuação dos inimigos de outra
época... Terá mocidade torturada por sonhos de
maternidade e não repousará, intimamente, enquanto não
oscular, no próprio colo, os três adversários
convertidos, então, em filhinhos tenros de sua ternura
sedenta de paz... Transportará consigo três centros
vitais desarmônicos e, até que os reajuste na forja do
sacrifício, recambiando-os à estrada certa, será, na
condição de mãe, um imã atormentado ou a sede obscura
e triste de uma constelação de dor.

O estudo era, sem dúvida, absorvente e fascina
  Conclusão deste estudo 
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