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Não às dependências! (Artigo 13 de 18)

       

CVDEE

"Não existe limite preciso separando de maneira clara um estado de toxicodependência de um estado de não dependência. Trata-se bem mais de uma evolução feita de várias fases. A passagem de uma etapa a outra não segue o mesmo ritmo em todas as pessoas. Ela é fruto de uma aprendizagem contínua da qual conhecemos muito mal os mecanismos. A quantidade e a qualidade das drogas consumidas não são, afinal, o elemento principal na carreira de uma pessoa dependente. O que importa é a carga simbólica associada aos produtos consumidos. Não tem sentido falar de "droga de patamar" para indicar o ponto de passagem de um estado de dependência a um outro. O que é importante é identificar, na relação que o jovem mantém com a droga, o que ele considera como indispensável à satisfação de suas principais necessidades no plano social, cultural, afetivo e cognitivo. Neste contexto, o efeito puramente fisiológico da droga importa pouco. O que é decisivo é a reconstrução que o consumidor faz de sua experiência, é a lembrança que dela tem."

RICHARD BUCHER(Extraído do livro: DROGAS E DROGADIÇÃO NO BRASIL. São Paulo, Artes Médicas 1992.)


COMENTÁRIOS IMPORTANTES SOBRE A QUESTÃO DAS DROGAS:
É facto muito comum, entre as pessoas, comentar-se sobre qualquer fenômeno como se ele fosse um evento isolado, fechado sobre si mesmo.

É o que ocorre com a questão do uso e abuso de drogas, ou seja, as pessoas tendem a considerá-la como algo relacionado diretamente com a substância psicotrópica (atribuindo o "problema" às propriedades farmacológicas das drogas) ou com o indivíduo (rotulando-o de sem-vergonha, desocupado, marginal etc.). Geralmente ignoram que a vida é uma complexidade de causas e conseqüências.

Aí podemos inserir o uso e abuso de drogas, que não deve ser entendido somente como uma causa ou como uma conseqüência, e muito menos como um facto redutível ao fator específico.

Esta questão ultrapassa os limites simplistas do senso comum. Suas possíveis causas e conseqüências estão referidas a uma articulação dinâmica entre as esferas psíquica, social e biológica. Assim, o ato de consumo de drogas de um indivíduo deve ser compreendido a partir:


* dos problemas psicológicos que ele esteja enfrentando,
* da tensão sócio-política e econômica que define sua sociabilidade,
* da propriedade farmacológica das drogas.

É bom ressaltar, quanto a esta última questão, que qualquer substância não tem efeitos predeterminados sobre os indivíduos. Isso varia de acordo com cada situação específica, seja ela social ou psíquica. Do mesmo modo, um dado problema psíquico ou social não conduz, necessariamente, alguém para as drogas. Tudo depende de como cada um desses fatores estão dispostos na realidade.


Portanto, para que possamos diminuir o preconceito e o estigma em torno do fenômeno das drogas e do seu consumo, é importante que saibamos ponderá-lo dentro de uma discussão ampla e séria, ou seja, visualizá-lo a partir daquilo que chamamos de TRIPÉ:

* INDIVÍDUO
* DROGA
* MEIO SOCIAL

Qualquer abordagem da questão do USO e ABUSO de drogas deve atender a esses três vértices: o INDIVÍDUO, a DROGA e o MEIO SOCIAL no qual ocorre o encontro entre os dois primeiros.

Se considerarmos apenas uma dessas questões isoladamente, estaremos correndo o risco de fazer uma interpretação falha de uma situação onde haja um consumo de drogas.


PREVENÇÃO

Este item pretende oferecer subsídios para o desenvolvimento de reflexões acerca da prevenção e seus aspectos relevantes.

Para uma melhor compreensão destas questões, sugerimos que você percorra os itens abaixo na sequência estabelecida:

Introdução e Considerações Históricas
Factores de Risco e Factores Protectores
Acções Preventivas
Tipos de Intervenção Preventiva
Modelos de Prevenção
Aspectos Relevantes na Prevenção

INTRODUÇÃO E CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS

A evolução recente do consumo de drogas é alarmante, em particular, nos países do Primeiro Mundo, embora estudos epidemiológicos brasileiros revelem alta prevalência do consumo de substâncias psicoactivas entre jovens, principalmente álcool e tabaco, de repercussões também alarmantes.

Existem divergências quanto à avaliação das razões, significações e as maneiras de enfrentar o aumento deste consumo. Porém, há consenso no tocante ao seu aumento em decorrência, por um lado, da organização do narcotráfico e, por outro, da demanda crescente por produtos psicotrópicos, por importante parcela da população. No entanto, a implantação de medidas adequadas para enfrentar o "problema" deve ter como base a compreensão profunda da FUNÇÃO SOCIAL da droga, ou seja, que papel ela desempenha e que significado ela possui dentro da sociedade.

A partir disto, pode-se entender que os indivíduos acabam por consumir drogas, pois a realidade social não está atendendo às necessidades humanas (seja para mantê-lo integrado a uma sociedade que não está podendo ocultar suas contradições, seja por que não se consegue uma sintonia com uma sociedade incoerente, onde se vê a falência de valores filosóficos, éticos e ideológicos). A droga surge, então, ou como um "amortecedor" entre o indivíduo e o meio, ou como um recurso através do qual se procura mascarar um profundo desconforto existencial.

O panorama mundial do consumo de drogas mostra, nos últimos anos, duas mudanças que o alteraram radicalmente: o surgimento da AIDS, propagando-se cada vez mais entre usuários de drogas injectáveis e a constatação da ineficácia do "combate as drogas" a partir de uma abordagem repressora e sensacionalista, percebendo-se a necessidade de abordagens inovadoras, entre as quais, em particular, a PREVENÇÃO.

Inicialmente, tentou-se prevenir o abuso de drogas pela repressão e fiscalização de sua comercialização. Diante da constatação da insuficiência desses meios, comparados com a expansão do consumo, tentativas mais recentes apostavam na educação dos jovens, visando responsabilizá-los pelas opções de saúde a serem efectuadas durante sua vida.

A partir de 1972, a UNESCO destacou, como necessidade universal e premente, o investimento na educação para prevenir o abuso de drogas.

Quando se fala em PREVENÇÃO AO USO INDEVIDO DE DROGAS, é importante enfatizar que estamos considerando-a como uma intervenção cujo objectivo é o de evitar o estabelecimento de uma relação destrutiva de um indivíduo com uma droga, levando-se, pois, em consideração, o tipo de relação que o sujeito mantém com a substância, seja esta lícita ou ilícita. Portanto, não tem sentido falar em PREVENÇÃO DE DROGAS, já que elas NÃO são "preveníveis".

Lembramos Xavier da Silveira (Projeto PROAD/IMESC, 1993) quando diz: "...As drogas são apenas substâncias psicoactivas, naturais ou sintéticas, que podem ser utilizadas pelo homem com finalidades diferentes, tais como fins terapêuticos, obtenção de prazer, alívio de algum mal-estar, rituais de celebração, ou negação de uma situação vivencial intolerável."

Portanto, não é por demais enfatizar que, quando se trata de programas de prevenção, é necessário pensar em que circunstâncias ocorre o uso, com que finalidade e qual o tipo de relação que o sujeito estabelece com a droga, não tendo sentido pensar na droga em si mesma, descontextualizada da integração indivíduo-droga-sociedade.
Ainda, nas ideias do autor, nenhum nível de acção preventiva deve confundir-se com uma política de total abstinência de álcool e drogas e, sim, reconhecer a existência de distintos padrões de consumo (uso recreativo, abuso, dependência) sendo que, alguns, não necessitam de intervenção.

Assim, uma política que prega a total abstinência e a busca de uma sociedade livre de álcool e drogas torna-se irreal uma vez que:

* uma sociedade livre de drogas constitui um objectivo inatingível visto que, enquanto problemática humana, encontra-se presente desde os primórdios da humanidade conforme revelam os mais antigos vestígios arqueológicos;

* a maioria dos indivíduos experimenta ou usa drogas ocasionalmente não estabelecendo, na maioria dos casos, uma relação de dependência com o produto;

* esse tipo de acção não tem qualquer efeito sobre a população de usuários, induzindo, na maioria das vezes, à estigmatização e, consequentemente, desincentivando-os a procurar ajuda;

* esse tipo de enfoque geralmente centraliza o problema no consumo de drogas ilícitas, desconsiderando o consumo indiscriminado de drogas lícitas (álcool, cigarro, MEDICAMENTOS etc.), como no caso do Brasil;

* essa política fere os princípios básicos de respeito a individualidade de cada um, na medida em que determina arbitrariamente regras de comportamento e tenta impor rígidos padrões de conduta.

Prevenir o USO INDEVIDO DE DROGAS é uma tarefa importante e complexa, uma vez que diz respeito à educação em seu sentido mais amplo, incluindo a questão dos valores. Neste sentido, educar corresponde a mais do que a simples transmissão de informações.

Corresponde à busca de mudanças de atitudes, hábitos e comportamentos. A prevenção supõe, então, uma visão integral e humana da questão. Isto implica ter claro que a drogadição é um fenómeno complexo resultante do encontro de três factores primordiais:

* sujeito - dotado de personalidade, valores e crenças

* produto/droga - suas características e efeitos no organismo

* contexto sócio-cultural - momento em que ocorre o encontro entre o produto e o indivíduo


Para combinar esses elementos, deve-se partir de reflexões sobre os valores éticos, políticos, sociais etc.

O ABUSO de drogas é um dos factores agressores do nosso quotidiano no bem como a poluição, o trânsito, a pobreza, a fome, o desemprego...

Estes, dentre tantos outros, são SINTOMAS da desestruturação de instâncias que determinam e sustentam a ordem social.

A proposta das acções preventivas fundamenta-se no "resgate das possibilidades de realização humana, abandonadas em consequência das opções operadas pela humanidade na evolução de seu próprio progresso" (Bucher 1992).

A prevenção ao USO INDEVIDO DE DROGAS deve ser orientada por ideias construtivas, considerando as necessidades biopsicosociais do homem, objectivando a VALORIZAÇÃO DA VIDA que preconiza o homem enquanto um ser social dotado de vontade e capaz de transformar a si e a seu meio.

Educar corresponde a muito mais do que a simples transmissão de informações: uma abordagem centrada na educação preventiva é aquela que oferece subsídios para o posicionamento do homem no mundo, oferecendo instrumental para que este possa lidar com os desequilíbrios sociais.

As propostas educativas devem estar preocupadas não apenas com a transmissão de informações ao indivíduo mas, também, com a sua formação, com a "construção" do cidadão que, ao se apropriar da compreensão da vida, estimule a reflexão conjunta a partir da experiência concreta de cada um, tornando possível uma prática em que efectivamente o sujeito e o grupo apropriem-se de um método de reconhecimento da realidade onde atuam- percebendo-se enquanto sujeitos transformadores - e, criando possibilidades de superar os desafios impostos pela automatização da sociedade, na busca constante de soluções modificadoras para a organização e realização sociais (colectivas) e pessoais.

Qualquer abordagem da questão do USO e ABUSO de drogas deve atender a esses três vértices: o INDIVÍDUO, a DROGA e o MEIO SOCIAL no qual ocorre o encontro entre os dois primeiros.
Se considerarmos apenas uma dessas questões isoladamente, estaremos correndo o risco de fazer uma interpretação falha de uma situação onde haja um consumo de drogas.


FACTORES DE RISCO E FACTORES PROTECTORES

Em síntese do que até agora foi dito, as propostas preventivas devem ser destinadas não apenas a prevenir o abuso de drogas, mas a resgatar toda uma dimensão humana desrespeitada.

Trata-se de uma tarefa difícil e complexa, aquela de restabelecer sentidos para a vida social, devolvendo valores e normas éticas baseadas no respeito à pessoa e às suas diferenças, bem como ao ambiente e às tradições culturais, religiosas e históricas.

É este conjunto, com suas númerosas interfaces transculturais, que órgãos internacionais chamam de "MELHORIA DE QUALIDADE DE VIDA", focalizando mais do que o "COMBATE AS DROGAS", não o produto, mas o homem enquanto cidadão, pessoa e sujeito, bem como o meio no qual está inserido.

Neste sentido faz-se necessário o desenvolvimento de ações preventivas que, envolvendo tanto as drogas lícitas quanto as ilícitas, estejam voltadas para o bem estar físico, psíquico e social do indivíduo.

Toda ação dirigida para o ser humano deverá levar em conta os aspectos acima (físico, psíquico e social), uma vez que é da interação destes que se constitui o homem e, é partir das características específicas de cada um, que decorrem as múltiplas origens da drogadição.

Ao eleger a VALORIZAÇÃO DA VIDA e QUALIDADE DE VIDA como diretrizes para o desenvolvimento de ações preventivas, considera-se que o problema da drogadição é amplo e não se restringe a uma causa ou motivação, revelando a existência de FATORES DE PROTEÇÃO e FATORES DE RISCO ao uso indevido de drogas.

Como FATORES DE RISCO entende-se aqueles que ocorrem antes do USO INDEVIDO DE DROGAS e que estão associados, estatisticamente, com um aumento da probabilidade do abuso de drogas. São aqueles que poderão levar o indivíduo a colocar-se diante de agressões. Este enfoque procura prevenir o USO INDEVIDO DE DROGAS, eliminando, reduzindo ou mitigando estes fatores.

Como alguns exemplos de FATORES DE RISCO tem-se:

* Fatores legais: a falta de cumprimento de pressupostos legais, como, por exemplo, os que proíbem a venda de bebidas alcóolicas a menores de 18 anos, ou a inexistência de legislação pertinente e atualizada, favorecem o abuso de drogas, tornando-se um fator de risco.

* Disponibilidade da droga: dependendo das leis e normas da sociedade, sejam as drogas legais ou não, o seu uso pode estar associado com o fácil acesso ao produto.

* Fatores econômicos (pobreza ou alto poder aquisitivo): estão relacionados com o aumento da delinqüência pelos jovens bem como ao uso de drogas.

* Fatores comunitários: constantes mudanças de residência, perda dos laços com a vizinhança, violência urbana, desorganizam a vida social do indivíduo.

* Fatores familiares: a família pode ser uma das variáveis para o primeiro contato com as drogas, já que os hábitos e os conflitos que o jovem percebe a sua volta contribui para uma introdução à costumes e práticas sociais. Os pais que tem por hábito o uso de drogas podem representar um comportamento tolerante ou indutor do uso de drogas.

A perda dos vínculos familiares e do vínculo maternal podem, também, estar relacionados ao uso de drogas.

* Problemas de comportamento precoces e persistentes: distúrbios de conduta que seiniciam muito cedo e continuam durante a vida, podem favorecer o uso de drogas.

* Problemas escolares: repetências, faltas, pouco compromisso com as atividades escolares.

* Pressão de grupos: através do estimulo dos grupos de iguais ou, em alguns casos, conduzido por um colega que já fez uso de drogas. A droga passa a ser um elemento socializador compartido, possibilitando a cumplicidade e um processo interativo com os amigos.


Os FATORES PROTETORES são aqueles que protegem o indivíduo de fatos que poderão agredi-lo física, psíquica ou socialmente, garantindo um desenvolvimento saudável.

Estes fatores reduzem, abrandam ou eliminam as exposições aos fatores de risco, seja reduzindo a vulnerabilidade ou aumentando a resistência das pessoas aos riscos. Podem ser:

* Dinâmica familiar estruturada;

* Diversificação das opções de vida;

* Rigor com a ética;

* Respeito aos direitos humanos possibilitando o exercício pleno da cidadania;

* Oferecimento de condições dignas de saúde, educação, trabalho, alimentação, entretantas outras.

Para a implementação desses fatores é necessário o desenvolvimento de um processo participativo que identifique e multiplique as ações protetoras, potencializando os efeitos uns dos outros.

O reconhecimento dos fatores de risco e o conhecimento precoce de problemas de dependência reforçam a cadeia de intervenções, podendo-se evitar seu agravamento.

O compromisso com a qualidade de vida visa ao homem dentro do seu contexto concreto de vida, discernindo suas dificuldades, seus conflitos e sofrimentos decorrentes de desequilíbrios psicossociais e econômicos, a procura de soluções mais adequadas passíveis de acarretar uma melhora global das suas condições de existência.

Dentro desta concepção, não é mais possível isolar a prevenção ao abuso de drogas da prevenção a AIDS ou da prevenção a outros agressores à saúde.
Uma prevenção concebida em uma abordagem holística ultrapassa os reducionismos e "humanizará" as intervenções propostas que tocam, inevitavelmente, em questões humanas fundamentais ligadas à sexualidade, ao prazer, aos sentidos da vida.

Para que uma educação preventiva, circunscrita à qualidade de vida, surta efeitos amplos e contínuos, deve fundamentalmente, não se limitar à situações extremas, com riscos já acentuados. Ao contrário, deve permear ações sociais e educacionais como um todo e de forma contínua, tanto para adultos quanto para jovens, envolvendo valores universais que presidem um verdadeiro progresso social, a saber: tolerância, solidariedade, paz, justiça e direitos humanos.


Para que este progresso seja verdadeiro, tem que se basear no respeito a diferença e na recusa a toda e qualquer discriminação - princípio democrático elementar.

Por fim, para se concretizar uma efetiva VALORIZAÇÃO DA VIDA, a educação preventiva deve incluir o respeito permanente aos valores culturais e às necessidades e aspirações de uma determinada população, independente do seu nível sócio-econômico. Visa, portanto, disseminar uma verdadeira "cultura preventiva" que possa influenciar as opções que se apresentam nos diversos segmentos da vida.

Neste sentido, necessita de ações que incentivem os processos culturais e interpessoais para fortalecer atitudes, valores e estratégias comunicativas que possam minimizar os mais diversos fatores de risco e incrementar potentes fatores de proteção.

ACÇÕES PREVENTIVAS

Para o desenvolvimento de acções preventivas é necessário firmar bases objectivas e fundamentação para propostas de políticas que ofereçam espaços reais para um programa, relacionando-o sempre com o bem-estar e o desenvolvimento do indivíduo e da sociedade.

As acções preventivas têm como objectivos:


* sensibilizar e capacitar os recursos humanos das instituições e grupos sociais envolvidos em programas de forma sistemática e contínua;

* mobilizar a comunidade para as acções de prevenção;

* desenvolver o processo de comunicação social.

De acordo com os níveis de intervenção, as acções preventivas são classificadas em: acções ESPECÍFICAS e INESPECÍFICAS.


As AÇÕES ESPECÍFICAS estão voltadas para a transmissão de informações, servindo de base para a criação de atitudes, valores e consolidação de comportamento.


O conteúdo desenvolvido nessas actividades está directamente relacionado às drogas - conceitos, classificação, histórico, dados epidemiológicos, pesquisa etc. - e é o que dá fundamentação teórica ao conteúdo dos projectos.


Embora sejam indispensáveis para a fundamentação e prática de qualquer acção preventiva, a informação por si só NÃO garante o êxito de um programa de prevenção. Já está constatado que a informação não consegue prevenir nenhum comportamento, podendo, inclusive, ser contraproducente.


Portanto, deve-se ter muito cuidado em contextualizar e buscar a maior objectividade possível quando da utilização de acções especificas, eximindo-se de posições extremistas.

No que diz respeito às acções especificas de prevenção, dois tipos de perspectivas são distinguidas:


* as que dizem respeito às INFORMAÇÕES SOBRE DROGAS, desenvolvidas através de cursos, seminários, material didáctico etc., visando a informações objectivas e verdadeiras sobre as drogas, seus efeitos e consequências.

* as que se referem à EDUCAÇÃO à SAÚDE, dando enfoque para a saúde em geral, actuando pedagogicamente, transmitindo conhecimentos, criando atitudes, discutindo valores, com a finalidade de estabelecer comportamentos, hábitos e estilo de vida saudáveis.


As AÇÕES INESPECÍFICAS estão voltadas para as causas ou factores que predispõem ao uso ou abuso de drogas, visando a potencializar a capacidade preventiva da própria comunidade a partir da criação de uma mentalidade de participação activa na dinâmica social.


Elas devem ser priorizadas a partir do diagnóstico da comunidade onde serão desenvolvidas. Os problemas detectados devem ser discutidos - buscando-se suas possíveis causas - e, as acções programadas, devem estar voltadas para impedir que estas se manifestem. Este tipo de acção preventiva está relacionado de forma indirecta com o uso de drogas e parte de situações aparentemente triviais, porém com força e peso suficientes para ter, por si só, capacidade preventiva.

Em um projecto de prevenção que tenha como linha a opção pela VALORIZAÇÃO DA VIDA e MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA, as acções inespecíficas devem ser priorizadas. Isto não quer dizer que as específicas devam ser esquecidas.

As acções inespecíficas estão voltadas para temas abrangentes como:

resgate da cidadania; questões do bem-estar social;

sexualidade;

opção profissional;

discussão do Estatuto da Criança e do Adolescente;

alternativas de lazer;

a questão do prazer;

família;

escola;

trabalho;

grupos.


TIPOS DE INTERVENÇÃO PREVENTIVA

O pressuposto para um programa preventivo é de que a prevenção deve ser encarada como um ATO CONTÍNUO.


Antecipadamente à elaboração de um programa, é preciso se ter, ainda, qual o objetivo que procuramos atingir.


Para controlar as conseqüências de saúde, sociais, financeiras e legais do uso abusivo de drogas, foram desenvolvidos inúmeros programas em diversas partes do mundo. Estes programas variam muito em relação aos seus objetivos, metodologia e ideologia subjacente.


Embora tenha se postulado a possibilidade de importar alguns deles para o Brasil, discute-se a validade de implantar aqui um programa pronto, sem a necessária adaptação.


Como a questão do uso e abuso de drogas é complexa e multidimensional, atingindo de forma diferenciada grupos distintos de pessoas, torna-se impossível desenvolver um programa único, aplicável a todos os casos. Deve, pois, respeitar a singularidade de cada localidade, população, condição social, cultural, econômica etc., não cabendo, portanto, "pacotes educacionais" que sirvam de forma genérica para o Estado e para o País.


Desta forma, antes de se iniciar um programa de prevenção é fundamental delimitar sua POPULAÇÃO-ALVO. Os programas dirigidos para populações específicas são mais eficazes do que aqueles dirigidos à população em geral. Uma vez determinada a população-alvo, deve-se estabelecer os OBJETIVOS e as METAS do programa.

A partir disto pensar-se-á nos TIPOS DE INTERVENÇÃO PREVENTIVA baseados nos três níveis de prevenção, tradicionalmente enfocados na medicina, a saber, PRIMÁRIA, SECUNDÁRIA E TERCIÁRIA.


PREVENÇÃO PRIMÁRIA
A prevenção primária pretende intervir antes que surja algum problema, no sentido de ser um conjunto de medidas que visam a uma educação para a saúde. Aqui destacam-se três pontos essenciais:


* esta intervenção tem que ser precoce - tem que se aplicar a crianças através do oferecimento de atividades prazerosas, criativas e educativas;


* ela deve estar inserida numa visão mais ampla da educação para a saúde, a fim de tornar atraente as regras para uma vida saudável;


* ela tem que se apoiar em "educadores naturais", em primeiro lugar os pais e os professores. Em resumo, a PREVENÇÃO PRIMÁRIA é o programa que objetiva evitar a ocorrência do problema-alvo, isto é, diminuir a incidência prevenindo o uso da droga antes que ele se inicie.
A intervenção PRIMÁRIA destina-se a duas faixas:


* JOVENS - enfatizando medidas como a conscientização e sensibilização para os problemas da infância e da adolescência em todos os seus aspectos (fisiológicos, psicológicos e sócio-culturais). Visa, portanto, a TODOS os jovens e não somente àqueles considerados como de alto risco.


* ADULTOS - fornecendo conhecimentos básicos, provocando e favorecendo uma reflexão maior sobre os problemas abordados, bem como um maior engajamento e participação dos "educadores naturais".

PREVENÇÃO SECUNDÁRIA Aplicada aos problemas do consumo de drogas, a prevenção secundária é um prolongamento da prevenção primária, cada vez que esta não alcançou os objectivos pretendidos.

Como exemplo, podemos falar sobre o adolescente que está em dificuldades (pessoais, familiares, sociais etc.) ou que já está consumindo drogas, seja por curiosidade ou de maneira intermitente.

Neste caso, apesar dele não ser um toxicômano, existe um risco maior dele investir na droga.

Neste sentido, propõem-se o empreendimento de novas aproximações em dois níveis:

* de uma comunicação mais dirigida para o jovem em questão, tentando aprofundar o diálogo baseado na compreensão recíproca;


* dos conhecimentos dos produtos utilizados pelo jovem, tratando-se de um aprofundamento de ambos os lados.


A PREVENÇÃO SECUNDÁRIA visa, pois, a diminuir a prevalência do problema-alvo, buscando impedir a progressão do uso uma vez iniciado.


PREVENÇÃO TERCIÁRIA
Aplicada às drogas, a prevenção terciária tem como objetivo essencial evitar a recaída, visando a reintegração do indivíduo na sociedade, possibilitando-lhe novas oportunidades de engajamento na escola, nos grupos de amigos, na família, no trabalho etc.Pressupõe-se que, no caso de uso de drogas, a dependência já esteja instalada. Neste caso, a prevenção terciária atuaria ANTES, DURANTE e DEPOIS do tratamento.
* ANTES do tratamento, a intervenção visa a ajudar o indivíduo a formular um pedido de ajuda e ao favorecimento de uma relação terapêutica efetivamente privilegiada;
* DURANTE o tratamento, visa a ajudar para que não se rompa um processo terapêutico ou de ajuda já iniciado, bem como desdramatizar a situação sem, contudo, minimizá-la;
* DEPOIS do tratamento, visa a uma ação conjugada com uma instituição voltada para a reinserção social.A PREVENÇÃO TERCIÁRIA objetiva, assim, diminuir as conseqüências de um uso já contínuo e intenso sendo, em geral, estratégias voltadas para a reabilitação e reinserção social do sujeito.


MODELOS DE PREVENÇÃO

Em maio de 1989 foi publicado o artigo "Prevenção ao Abuso de Drogas na Escola: Uma Revisão da Literatura Internacional Recente" (Carlini Cotrim, B. e Pinsky, I.), que sistematiza as posturas teóricas (ideológicas e políticas) que orientam os programas que visam prevenir o abuso de drogas no sistema escolar. Apesar das propostas de atuação tratadas no artigo estarem mais especificamente voltadas para o contexto escolar, não deixam de ser uma referência fundamental para a orientação de outras organizações institucionais que pretendem implantar um programa de prevenção.


No geral, há três propostas diferentes de atuação visando a prevenção ao abuso de drogas:

Aumento do Controle Social
Oferecimento de Alternativas
Educação

AUMENTO DO CONTROLE SOCIAL

Os princípios teóricos desta linha afirmam que a natureza do problema do aumento do uso de drogas entre jovens, nas últimas décadas, é a recente e rápida diminuição do controle social exercido pelos adultos sobre o comportamento dos jovens, ou seja, a mesma natureza de fenômenos como a intensificação da delinqüência juvenil, da gravidez precoce e das doenças venéreas na adolescência.

Para esta linha, o móvel principal que leva os jovens a terem estes comportamentos é a busca impulsiva, desenfreada do prazer. Como este prazer é nocivo à sociedade, cabe a ela colocar limites nesta busca.

Deste modo, tem-se como propostas: a recuperação do conceito de punição, a diminuição à tolerância e o aumento do controle sobre os indivíduos.

No âmbito da instituição escolar, a tradução prática destas propostas é a volta a uma educação mais rígida, com maior controle, tentando encerrar o que se chama da prática de "tratar os jovens como pseudoadultos", permitindo que eles tomem decisões e façam escolhas sem terem ainda a responsabilidade sobre estas opções

Estas propostas são vistas, por muitos teóricos, como conservadoras, cujos pilares seriam: a noção do jovem como um ser incapaz de discernimento de suas ações e a utilização de drogas como pretexto para aumentar o controle social sobre todas as ações consideradas indesejáveis, diminuindo o campo da autonomia das pessoas.

Esta linha de atuação é bastante utilizada nos Estados Unidos da América do Norte, tendo se constituído numa importante vertente de atuação dos últimos governos daquele pais.

OFERECIMENTO DE ALTERNATIVAS

Este modelo de prevenção defende a noção de que o abuso de drogas tem suas raízes em problemas e tensões sociais enfrentados pelos jovens que procurariam na droga uma fuga às pressões e frustrações vividas.


Falta de perspectiva no mercado de trabalho, um sistema educacional inadequado e distante da realidade dos jovens, falta de opções de lazer e de actividades culturais e fechamento do espaço de participação política são alguns dos fatos associados, nesta teoria, ao abuso de drogas.


Este enfoque difere de outros por não propor uma intervenção no uso de drogas em si, mas nas condições sociais que se acredita facilitarem o consumo.


Alguns exemplos de intervenções adoptadas por este modelo são: estruturação de grupos culturais e esportivos actuantes fora do horário escolar, implantação de programas extracurriculares de instrução profissional, incentivo à formação de grupos de jovens para discussão de seus problemas sociais e afectivos ou formação de escolas especiais que levem em conta especificidades culturais de certos segmentos sociais, como por exemplo, minorias étnicas.

Alguns exemplos de intervenções adoptadas por este modelo são: estruturação de grupos culturais e esportivos actuantes fora do horário escolar, implantação de programas extracurriculares de instrução profissional, incentivo à formação de grupos de jovens para discussão de seus problemas sociais e afectivos ou formação de escolas especiais que levem em conta especificidades culturais de certos segmentos sociais, como por exemplo, minorias étnicas.


A aplicação deste programa é encarada por vários autores como o procedimento mais adequado de actuação no Terceiro Mundo e no caso de populações marginalizadas e carentes de países desenvolvidos. No entanto, sua aplicação não é restrita a estes segmentos, existindo vários programas deste tipo com outros grupos populacionais.

EDUCAÇÃO

Actualmente, existem os seguintes modelos de educação preventiva ao abuso de drogas:

O MODELO DO PRINCÍPIO MORAL

O enfoque aqui utilizado prega que o abuso é condenável dos pontos de vista ético e moral. Geralmente tem como base princípios religiosos ou movimentos políticos baseados em valores como patriotismo, ou sacrifício pessoal pelo bem comum.

Em alguns momentos históricos este modelo foi efectivo como, por exemplo, na situação de Cuba imediatamente após a revolução socialista.

Actualmente sua utilidade e pertinência são negadas pelos profissionais da área, existindo avaliações que concluíram ser este enfoque contraproducente na maioria dos casos.

O MODELO DO AMEDRONTAMENTO

Há algumas décadas, acreditou-se que campanhas de informação, que expusessem somente os lados negativos das drogas, seriam eficientes para persuadir as pessoas a não começarem ou a pararem de usar drogas. Actualmente esta crença está bem abalada, particularmente quando se trata de actuar junto à populações mais jovens.

Os resultados decepcionantes desta linha educacional podem ser explicados pela tendência dos jovens de se sentirem atraídos por comportamentos que envolvam ao desafio ao perigo. Outro factor seria a falta de credibilidade que o modelo de Amedrontamento geraria - uma razoável parcela dos jovens tem ou teve experiência com drogas e pode contrastar sua própria vivência com as informações unilaterais fornecidas neste tipo de educação. Como a maioria dos problemas mais sérios com drogas só aparece em usuários crónicos, esta estratégia de amedrontamento acabaria desmoralizada.

O MODELO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Este modelo educacional surge da crítica do modelo anterior (do amedrontamento) e propõe o fornecimento de informações sobre drogas de modo imparcial e cientifico. A partir destas informações, propõe o modelo, os jovens poderiam tomar decisões racionais e bem fundamentadas sobre as drogas.

Infelizmente, as avaliações realizadas sobre a eficácia deste tipo de educação foram bastante desanimadoras. Vários autores constataram que, apesar de uma grande parcela dos jovens revelar ter assimilado as informações oferecidas, isto não implicava na diminuição da porcentagem de usuários de drogas, sendo possível encontrar até, em alguns casos, um aumento dos níveis de consumo.

A explicação mais corrente para este fato é a de que as informações imparciais sobre as drogas influem de maneira dupla: gerando um maior nível de conhecimento formal sobre as mesmas entre os que usam drogas, mas não uma mudança de atitude e/ou comportamento; enquanto que, dentre os que não usam drogas, por temerem os seus efeitos, o conteúdo deste modelo serviria para rebaixar o medo e a tensão, proporcionando uma mudança de atitude e comportamento favorável ao uso.

Mas alguns autores não acreditam que esta associação entre o conhecimento científico e uso de drogas seja tão simples assim. Não acreditam, também, que simples informações sejam capazes de provocar nas pessoas a decisão de usar drogas. Isto não quer dizer que eles sejam defensores desta estratégia educacional, mas que questionam os resultados pessimistas obtidos.

De qualquer maneira, o modelo de informação ainda é muito utilizado, principalmente como auxiliar na estruturação de programas educativos mais amplos.

O MODELO DA EDUCAÇÃO AFECTIVA

A proposta deste modelo é a modificação de factores pessoais que são vistos como predisponentes ao uso de drogas. Constitui-se de um conjunto de técnicas que visa a melhorar ou desenvolver a auto-estima, a capacidade de lidar com a ansiedade, a habilidade de decidir e interagir em grupo, a comunicação verbal e a capacidade de resistir às pressões de grupo. A droga em si nunca é tratada como questão central, mas frequentemente é um dos vários tópicos destes programas.

A eficácia deste tipo de intervenção é um item bastante polémico, o que em parte pode se dever aos poucos anos de experiência com ele. Vários trabalhos relatam um impacto positivo destes programas, embora de pequena dimensão. Outros autores apontam para uma melhora de algumas deficiências pessoais dos alunos (auto-estima, por exemplo), mas sem a diminuição nos níveis de consumo de drogas.

A literatura aponta com frequência, também, as dificuldades de implementar programas desta natureza nas instituições escolares, permeadas pela tradição e pela dificuldade em absorver mudanças. Os professores teriam que passar por um treinamento bastante intenso e estarem dispostos a estabelecer uma dinâmica diferente na sala de aula para conseguirem lidar com características pessoais e psicológicas dos seus alunos. Isto nem sempre é fácil, e vários programas europeus apontaram a "pouca disposição dos professores para mudar" como um factor limitante desta linha de actuação.

O MODELO DO ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL

A estratégia deste modelo é o de promover estilos de vida associados à boa saúde. Assim, não usar drogas seria um dos elementos de uma maneira de viver que incluiria também alimentação balanceada, controle de peso, das taxas de colesterol e da pressão arterial, exercícios físicos regulares etc.

Estes comportamentos tem sido muito incentivados pelos meios de comunicação e encontram adeptos actualmente. Na Franca, tal proposta tem sido trabalhada, na escola, através da matéria "Ecologia Médica", onde se discute uma série de problemas advindos do avanço tecnológico e da sociedade urbano-industrial, assim como estratégias para superá-los.

Poluição, barulho, trânsito, substâncias cancerígenas, perigo atómico, drogas, álcool e tabaco são os principais tópicos da "Ecologia Médica".

O MODELO DA PRESSÃO DE GRUPO POSITIVA

Ainda pouco desenvolvido, porque é muito recente, tem como tese central a utilização da pressão de grupo como um factor de influência para não usar drogas.

A pressão de grupo, argumentam os autores, foi até agora considerada um elemento muito importante para a determinação do comportamento de consumir drogas entre os jovens. Por que então não usá-la de maneira inversa? Para isso, este modelo prega o afastamento dos adultos e a utilização dos próprios jovens para liderarem programas de prevenção de drogas.

Propõe, assim, o contacto com líderes naturais dos adolescentes, para treiná-los a lidarem com o problema, o incentivo de festas onde não existam psicotrópicos ("drug free parties") e o fortalecimento de organizações de solidariedade e ajuda entre os jovens.

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